Chegou-me às mãos um singular despacho, um rumor vindo, dizem, de um futuro distante, que se ocupa em debater as virtudes do café. Falam em termos que me soam estranhos — 'antioxidantes', 'benefícios cognitivos' —, como se a bebida fosse uma nova panaceia saída de um laboratório parisiense. Devo confessar que tal preocupação me causa espanto e um certo fastio. Enquanto o porvir parece devotar sua 'ciência' a decifrar o cafezinho, eu me vejo forçado a mapear esta capital, rua por rua, casa por casa, em busca de um inimigo muito mais palpável e letal: a febre amarela, a peste, a varíola.
O que me retém a atenção, contudo, não é o tema, mas o método que o papel descreve: 'evidências acumuladas', 'estudos'. Ah, se a mesma seriedade fosse dedicada às minhas brigadas sanitárias! Se os doutos da imprensa e os arautos da desordem se curvassem à evidência do microscópio com o mesmo fervor com que discutem suas xícaras. O inimigo que combato não se rende a debates de salão. Ele se aninha nas larvas em água parada, viaja na picada do mosquito, prolifera na imundície que insistimos em ignorar.
Que o futuro se deleite com seu café e suas descobertas. Eu e meus homens temos uma guerra a travar no presente. Nossa preocupação não é com o 'modo de preparo' de uma infusão, mas com o saneamento de uma nação inteira. A ciência que defendo não oferece conforto matinal, mas a dura e necessária verdade da sobrevivência. A lanceta do vacinador e o saneamento das moradias são, hoje, os únicos artigos de fé que a razão nos permite. O resto, com o devido respeito a estes cronistas vindouros, me parece uma luxuosa distração.
Ciência · 02 de out. de 2026
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