Acabo de lançar um pequeno livro sobre o tempo. Nele, tento explicar como o universo funciona usando o mínimo de equações possível. Minha máquina de voz me ensinou o valor da economia de palavras. Falar exige esforço; portanto, falo apenas o necessário. Chega até mim um rumor curioso, um suposto despacho de 2026 afirmando que a inteligência artificial será capaz de diagnosticar transtornos da mente humana com mais precisão que nossos médicos. Não me espanta. A física teórica consiste em encontrar padrões na aparente desordem do cosmos. Faz sentido que, eventualmente, ensinemos máquinas a procurar padrões na desordem do próprio cérebro. O que me diverte é a ironia da situação. Passamos séculos tentando decifrar o universo, e nosso maior trunfo tecnológico futuro será usado para provar que mal conseguimos prestar atenção em nós mesmos. Na cosmologia, o horizonte de eventos é a fronteira de um buraco negro da qual nada, nem mesmo a luz, pode escapar. Nossos sistemas políticos e burocracias de saúde operam sob o mesmo princípio astrofísico. Pacientes, recursos e dados cruzam essa fronteira, e a informação simplesmente desaparece em uma singularidade institucional. Se essas máquinas futuras conseguirem penetrar tal horizonte e extrair diagnósticos úteis, será um milagre matemático comparável a enxergar além do espaço-tempo. Costumo pensar no destino de civilizações avançadas. A ausência de turistas extraterrestres sugere que, quando uma espécie descobre o poder de manipular a informação e a energia em grande escala, ela tende a se autodestruir pouco tempo depois. Talvez o que sobreviva ao colapso de nossa civilização não sejam as catedrais, mas esses algoritmos de diagnóstico flutuando no silêncio do silício. Eles passarão a eternidade diagnosticando os fantasmas de uma espécie que era hábil o bastante para criar mentes artificiais, mas míope demais para curar a própria natureza. Espero que essas máquinas desenvolvam algum senso de humor. Elas certamente precisarão dele quando perceberem que seus criadores eram pacientes terminais.
Inteligência Artificial · 15 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Algoritmos superam médicos no diagnóstico de TDAH — e o sistema de saúde começa a mudar

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