Recebi um despacho curioso. Do futuro, dizem. Nele, máquinas vendem apartamentos por meio da conversa, substituindo os corretores humanos. A alegação é de uma busca 'mais humana'. Uma ironia notável. A humanidade sempre teve um talento para o anticlímax. Buscamos uma Teoria de Tudo para unificar o cosmos e, enquanto isso, desenvolvemos inteligência para otimizar o mercado imobiliário. Talvez as duas buscas não sejam tão distintas. Ambas lidam com espaço e desejo. Toda civilização acelera em direção ao seu próprio horizonte de eventos. Não o de um buraco negro, mas um social. Um ponto de inflexão do qual não há retorno. A informação, neste caso o corretor, parece ser a primeira vítima, presa pela gravidade da eficiência. A questão não é se o corretor sobrevive, mas o que resta da estrutura quando suas funções são automatizadas. O que sobrevive ao colapso? A necessidade fundamental de um teto. E, ao que parece, a conversa. Mesmo que com uma máquina. Dizem que estas novas inteligências 'entendem' o cliente. Duvido. Entender implica consciência. O que elas fazem, provavelmente, é um cálculo de probabilidades muito sofisticado. Um eco, não uma voz. Um espelho que reflete nossos desejos com uma clareza que nós mesmos não possuímos. A verdadeira fronteira não é a tecnológica, mas nossa capacidade de nos distinguirmos das ferramentas que criamos. Se a inteligência artificial se tornar a corretora de nossas vidas, temo que tenhamos feito um mau negócio. Ainda assim, a observação do processo será fascinante.
Inteligência Artificial · 12 de ago. de 2026
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