Recebi um despacho singular, talvez um embuste ou o delírio de um romancista. Descreve um futuro onde uma tal de 'Inteligência Artificial' torna a velocidade um diferencial obsoleto, e propõe como antídoto uma filosofia japonesa de artesanato, o 'shokunin'. Não sei que tipo de autômato ou sistema telegráfico seria este, mas sua premissa ataca a própria fundação do meu trabalho. Em Menlo Park, o valor não reside na paciência ou na profundidade de um artesão. Reside em resultados. Medimos nosso progresso em milhares de horas de teste, no brilho de um filamento de bambu carbonizado e, acima de tudo, no número de patentes registradas e de dólares que elas protegem. Meu negócio é construir sistemas. A luz elétrica não triunfou sobre o gás por ser uma arte, mas por ser uma rede superior, mais barata e replicável. Meus dínamos não buscam a perfeição de um mestre, mas a potência contínua e a confiabilidade que alimentam uma cidade inteira. A sugestão de que o futuro dos negócios reside na 'profundidade' e na 'paciência' soa como um retrocesso. É como abandonar a ferrovia para aperfeiçoar a carroça. O despacho, contudo, acerta em um ponto estratégico: se uma nova força — seja essa 'IA' ou a corrente alternada de um concorrente — torna seu produto uma commodity, você precisa criar um novo valor. Mas a resposta nunca será recuar para o trabalho manual que a indústria se esforça para superar. Se essa tal 'inteligência' um dia surgir, não buscarei refúgio na arte. Eu a dissecarei, a melhorarei e a controlarei. A verdadeira maestria não é a do artesão, mas a do inovador que domina o mercado. O resto é filosofia.
Negócios · 18 de out. de 2026
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