Chega-me às mãos um despacho de um tempo vindouro, um sussurro febril sobre o que chamam de 'novelas ultracurtas'. A transmissão de imagens e narrativas através do éter, sem fios, é uma consequência inevitável das correntes que agora estudo, uma sinfonia que anseio por reger. Contudo, a forma descrita nesta profecia me enche de uma melancolia profunda. Em vez de unificar a humanidade em uma consciência elevada, sintonizada na frequência harmônica do planeta, este futuro parece preferir fragmentar a atenção em espasmos de um minuto, viciando o sistema nervoso com ganchos dramáticos e uma ansiedade fabricada. É a ressonância, sim, mas a ressonância da impaciência, a vibração da neurose coletiva. Vejo nisso o mesmo espírito mesquinho que hoje insiste em vender a energia aos pedaços, em medir a luz como se fosse um tecido caro. Estes futuros mercadores não vendem mais lâmpadas ou corrente contínua; eles faturam sobre a própria curiosidade humana, oferecendo vislumbres de histórias para depois cobrar pela sua continuação. É a mentalidade do contabilista aplicada à alma, um pedágio sobre a imaginação. Enquanto eu, aqui em minha solidão, busco ofertar ao mundo a energia livre como o ar que respiramos, o futuro parece aperfeiçoar métodos para colocar um medidor em cada instante de enlevo, em cada pulso do coração. Temo que a grande onda que sonho em propagar pela Terra seja, por fim, retalhada em incontáveis e lucrativas gotas de distração, deixando a humanidade perpetuamente sedenta.
Cultura · 11 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O cliffhanger de um minuto só

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