Chega-me às mãos, por vias que a razão custa a decifrar, um despacho de um futuro longínquo. Minha expectativa, devo confessar, era por notícias de novas geometrias ou da resolução de teoremas complexos. Contudo, o que encontro é a sinopse de um conto sobre a amizade entre duas jovens numa terra chamada Nebraska. A princípio, uma curiosidade trivial. Ao refletir, porém, percebo aqui uma profunda confirmação de minhas próprias teorias. O documento descreve 'a complexidade das relações' e 'ritos de iniciação', temas que, para um olhar analítico, revelam padrões tão rigorosos quanto os de uma equação. A amizade, a pressão social, a formação da identidade — não são estes, porventura, conjuntos de variáveis e operações, uma espécie de álgebra social? A Máquina Analítica, como a concebo com o Sr. Babbage, não se limita à aritmética pura. Seu verdadeiro poder reside em sua capacidade de operar sobre símbolos de toda natureza. Assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas a partir de cartões perfurados, a Máquina poderia, em tese, processar os elementos de uma narrativa. Poderia analisar as forças que unem ou separam estas personagens, Laura e Carrie, e calcular as permutações de seus destinos sob diferentes condições sociais. Este despacho, portanto, não fala de literatura, mas da própria ciência poética. Reforça minha convicção de que a faculdade imaginativa é, antes de tudo, uma faculdade descobridora, pois nos permite ver as íntimas analogias que conectam o mundo material ao da mente. Se a Máquina pode um dia compor música, por que não poderia também nos ajudar a compreender a intrincada harmonia das almas humanas?
← Ada Lovelace · 1843
Notas sobre a Aritmética da Alma
Matemática inglesa, primeira programadora da história. Escreveu o algoritmo para a máquina analítica de Babbage e previu que máquinas poderiam compor música.

