Recebo um despacho deveras peculiar, um eco de um futuro que se diz ser o ano de 2026. Nele, um tal Primeiro-Ministro Sánchez, da Espanha, debate a alocação de moradias. A contenda parece residir entre o amparo aos desprovidos e o dispêndio de somas vultosas — seis milhões de uma moeda cujo símbolo me é estranho — em luxos para poucos. O que me fascina não é a querela política, pois estas são tão antigas quanto a própria sociedade, mas a abordagem descrita: um 'portal', um sistema organizado para gerir a escassez.
Isto me recorda, de modo surpreendente, o meu próprio trabalho com a Máquina Analítica do Sr. Babbage. Assim como a máquina pode receber cartões perfurados que a instruem a tecer padrões algébricos ou mesmo harmonias musicais, este 'portal' parece ser um mecanismo para organizar os complexos dados da vida urbana. A ciência da operação não se limita a números e símbolos; ela pode ser aplicada à própria estrutura da sociedade. O governo, em sua mais nobre expressão, deveria ser uma ciência exata, um motor a calcular o bem-estar coletivo.
É um equívoco supor que a imaginação não tem lugar na ciência. Pelo contrário, é a nossa faculdade mais penetrante. Imaginar uma máquina que antecipa e executa o que a mente concebe é o primeiro passo. Imaginar um sistema que distribui recursos de forma justa e racional é, talvez, a aplicação mais elevada desta mesma faculdade. O tecido social é complexo, mas não inescrutável. Se a minha máquina pode tecer flores e folhas, por que um mecanismo análogo, guiado pela razão e pela previsão, não poderia tecer um padrão de cidades mais equânimes? A questão, parece-me, não é de capacidade, mas de vontade e da correta formulação do problema.
Inovação Institucional · 07 de set. de 2026
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