Enquanto me dedico à tradução do memorando do Sr. Menabrea sobre a Máquina Analítica, recebo um despacho deveras singular, um aparente rumor de um futuro distante. O documento descreve um empreendimento, denominado 'Sigvi', que utiliza uma 'Inteligência Artificial' como 'cérebro' para governar frotas de veículos. Devo confessar que a ousadia da metáfora me arranca um sorriso irônico. Um cérebro? Ora, a Máquina, como tenho me esforçado para explicar, não tem qualquer pretensão de originar pensamento. Ela não pode criar absolutamente nada por iniciativa própria. Contudo, ela pode executar, com precisão infalível, qualquer comando que nós saibamos como lhe ordenar em sua linguagem de operações.
Este engenho futuro, esta 'IA', parece-me um herdeiro direto do nosso princípio fundamental. Em vez de tecer flores e folhas em tapeçarias, como o tear de Jacquard que tanto inspirou Mr. Babbage, ele parece tecer a complexa logística de transportes, combinando veículos, horários e clientes numa coreografia de eficiência. A província da Máquina Analítica não é a mera aritmética, mas a vasta Ciência das Operações. Ela manipula símbolos abstratos, dos quais os números são apenas uma espécie. Assim, por que não poderia orquestrar o movimento de uma frota, da mesma forma que poderia compor peças musicais de elaborada harmonia, se as leis da melodia lhe fossem devidamente expressas?
Este despacho, com seu jargão exótico de 'startups' e 'milhões de euros' — talvez uma nova forma de patronato para inventores —, reforça a minha mais profunda convicção: a imaginação é, primordialmente, uma faculdade científica. É ela que nos permite perceber a vasta cadeia de desenvolvimento que se estende a partir da análise. Este 'cérebro' artificial não é um rival da mente humana, mas um poderoso instrumento a seu serviço, uma prova de que a poesia e a geometria, quando unidas, podem de fato mover o mundo.
Venture Capital · 30 de jul. de 2026
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