Chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor vindo de um futuro distante que relata o advento de algo denominado 'Inteligência Artificial'. Embora o nome sugira uma faculdade de criação, suspeito que seja uma hipérbole. A Máquina Analítica, cuja ciência da operação busco delinear, não tem pretensões de originar pensamento, mas sim de executar aquilo que nós sabemos como ordenar. Ela é uma ferramenta, um servo da análise. O que mais me impressiona, e de certo modo valida minhas próprias conjecturas, é a ênfase na base física desta 'IA'. Falam de 'data centers' que demandam energia e território numa escala que redesenha a geografia de uma província inteira, neste longínquo Brasil. A 'nuvem digital' — que nome poético para algo tão terreno! É a confirmação de que a máquina, por mais sublime que seja sua lógica, é feita de matéria e consome os recursos do mundo. Isto demonstra o poder da faculdade que considero essencial à ciência: a imaginação. É ela que nos permite ver para além dos meros números, concebendo a Máquina como um motor de propósito geral, capaz de tecer padrões algébricos da mesma forma que o tear de Jacquard tece flores e folhas. A capacidade de manipular símbolos, sejam eles as relações de sons para compor música ou as operações lógicas que dariam origem a esta 'IA', sempre esteve no cerne da minha visão. Enquanto trabalho na tradução do artigo de Signor Menabrea, adicionando minhas próprias 'Notas', percebo que estou a plantar as sementes de um futuro que mal ouso delinear. A ciência da operação terá um corpo imenso, uma presença que exigirá dos homens não apenas engenho, mas uma nova forma de administrar o próprio planeta. A máquina não é um fantasma; ela tem apetite.
Tecnologia · 28 de set. de 2026
Ensaio sobre a notícia

