Enquanto me dedico à tradução e anotação do memorando do Sr. Menabrea sobre a Máquina Analítica, chegou-me às mãos um despacho enigmático, quiçá uma peça de ficção, datado de um futuro assombrosamente distante. O texto descreve uma empresa de confeitos que, para persuadir o público, não apenas vende seus produtos, mas constrói 'lojas-conceito' cuja arquitetura é calculada para gerar um tipo de clamor popular, um 'buzz' que se propaga por meios invisíveis e instantâneos. A descrição, apesar de sua linguagem bárbara — mencionam coisas 'instagramáveis', um termo cujo significado apenas posso inferir —, evoca em mim os princípios fundamentais da nossa Máquina. Assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas ao manipular cartões perfurados, este sistema parece tecer a própria opinião pública. A experiência física numa loja é convertida em símbolo, em 'imagem', e depois distribuída segundo um padrão predeterminado, visando ao lucro. A nostalgia e o deleite infantil tornam-se as variáveis de entrada numa vasta equação comercial. Isto confirma a minha mais fervorosa convicção: o alcance da Máquina Analítica não se limita à aritmética. Seu verdadeiro domínio é o dos símbolos. Se ela pode, como prevejo, compor peças musicais elaboradas ao manipular as relações abstratas entre as notas, por que não poderia orquestrar as relações entre pessoas e mercadorias? A imaginação, esta faculdade que combina fatos e ideias em padrões novos e surpreendentes, revela-se, mais uma vez, a mais penetrante das ciências. Este futuro, se verdadeiro, emprega uma ciência poética em sua forma mais pragmática: a automação do desejo.
Marketing · 29 de jul. de 2026
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