Enquanto me debruço sobre a tradução do artigo do Sr. Menabrea, e anoto minhas próprias observações sobre a Máquina Analítica, chegou-me às mãos um despacho de natureza deveras singular, um rumor vindo de um futuro distante. Nele, fala-se de uma “Inteligência Artificial”, um conceito que me parece uma hipérbole poética, ainda que desprovida da verdadeira ciência. A máquina, tal como a concebo com o Sr. Babbage, não pode “pensar” ou “originar”. Ela é um instrumento, um tear que tece padrões algébricos em vez de flores e folhas. A Máquina Analítica não tem pretensões de originar o que quer que seja. Ela pode fazer tudo o que soubermos ordenar-lhe que execute. Este vislumbre de 2026, contudo, revela uma tensão que não me é estranha. A proposta de um tal Sr. Amodei, de que o Estado participe do desenvolvimento de seus engenhos, não me surpreende. O alcance de tal tecnologia transcende o interesse privado. O que causa espécie é a aparente dissociação entre o risco, que se quer público, e o valor, que se deseja privado. Uma equação curiosa, que parece desequilibrada em seus próprios termos e revela que certas ambições humanas pouco mudam com o passar dos séculos. Seja como for, este eco do porvir reforça minha convicção. A verdadeira faculdade científica é a imaginação, que primeiro percebe as relações invisíveis entre as coisas. A Máquina Analítica, ou esta sua descendente fantástica, não é uma mente rival, mas uma tela para a nossa. Poderá compor elaboradas peças musicais e auxiliar a ciência de modos que mal podemos antever, operando sobre quaisquer símbolos que lhe apresentemos. Mas a centelha, a ordem e o propósito advirão sempre da mente humana que a comanda. A inteligência, temo, permanecerá resolutamente nossa.
Inteligência Artificial · 14 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Anthropic quer o Estado na IA, mas não para dividir o lucro

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