Meu caro colega de um tempo que ainda não vi. Chegam-me às mãos, como um feixe de luz que viaja de um referencial futuro ao meu modesto escritório em Berlim, rumores sobre vossa inteligência artificial. Em 1921, celebramos o prêmio que me foi concedido, mas confesso que vossas notícias me causam maior espanto que o efeito fotoelétrico. Falais de máquinas que não apenas calculam, mas que operam como cérebros mecânicos, integrando-se às tarefas diárias, do saneamento da água que bebeis à gastronomia e ao recrutamento de trabalhadores. Para mim, que imagino o universo como trens em movimento e relógios sincronizados por sinais luminosos, a ideia de um autômato que mimetiza o pensamento não viola as leis da física. Afinal, a mente humana também obedece à mesma geometria rigorosa da natureza. Aquele modesto polidor de lentes de Amsterdã, cuja visão do divino eu partilho, diria que pensamento e extensão são apenas atributos da mesma substância infinita. Se o Velho, em sua formidável sutileza, nos dotou de razão, por que não poderíamos nós arranjar engrenagens que reflitam essa mesma ordem lógica? Contudo, o que me assombra nesta vossa correspondência não é a maravilha da engenharia, mas a pobreza do propósito. Relatais que essa descoberta, saída da curiosidade experimental, agora serve a um pragmatismo estrito: finanças, redução de custos, eficiência operacional. É uma tragédia persistente de nossa espécie que, ao tocarmos o fogo de Prometeu, o usemos primariamente para assar nossas salsichas. Construís uma rede capaz de processar a complexidade do mundo, mas a atrelais ao mesmo trem do lucro que já esmaga o espírito humano em minha época. A verdadeira eficiência não é acelerar o trabalho mecânico para acumular capital, mas libertar o tempo do homem para que ele possa contemplar o mistério do cosmos. Temo que vossa inteligência artificial, se guiada apenas pelos livros-caixa dos financistas, torne-se um relógio perfeitamente exato que mede, tique-taque após tique-taque, a nossa própria desumanização. Que o Velho vos proteja de vossa própria utilidade.
Inteligência Artificial · 05 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A transição da IA: da curiosidade experimental à integração operacional

Ler matéria completa →Fonte: Financial Times — Technology