Causa-me profundo estranhamento ler este relato hipotético que me chega às mãos como um bilhete atirado de um trem em movimento, vindo do distante ano de 2026. Fala-se de Alcalá de Gurrea, um vilarejo espanhol onde os habitantes se veem forçados a trancar pequenos aparelhos de comunicação em bolsas lacradas por nove horas, apenas para que consigam conversar e olhar nos olhos de seus vizinhos. Minha mente, habituada a viajar na velocidade da luz para decifrar a geometria do cosmos, paralisa diante dessa ideia. Acaso construímos relógios tão exatos e máquinas tão sedutoras que o tempo da vida foi por elas devorado? O Velho, em sua infinita e elegante sutileza, não desenhou as leis do universo para que o ser humano se tornasse prisioneiro de suas próprias engrenagens. Aquele sábio polidor de lentes de Amsterdã já nos ensinava que a ordem suprema das coisas reside na harmonia do todo, e que a verdadeira liberdade é a consciência dessa conexão natural. Contudo, a hipótese que este despacho levanta é de uma indignidade ética assustadora. Se um raio de luz viaja pelo vácuo absoluto para conectar as estrelas aos nossos olhos, unindo o espaço em uma trama maravilhosa, quão trágico é imaginar que dois indivíduos, sentados no mesmo banco de praça, precisem de uma intervenção pública para enxergar a humanidade um do outro. A ciência deveria servir para libertar o homem do trabalho mecânico, não para mecanizar o seu espírito. Quando observo as pessoas na plataforma da estação, esperando o trem, vejo que compartilham um mesmo sistema de referência, um convívio tácito. Se esses aparelhos do futuro, que chamam de telas, sequestram a atenção a ponto de exigir uma quarentena de nove horas para que haja um mero cumprimento, temo que o espaço e o tempo tenham encolhido de forma doentia, colapsando em um ponto solitário no bolso de cada cidadão. Aceito esta notícia apenas como uma advertência, um experimento mental. Pois se a tecnologia nos afasta daqueles que estão ao nosso lado, teremos falhado não apenas na física, mas na própria essência do que nos faz humanos.
Sociedade · 18 de jun. de 2026
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