Dizem que meu novo livro simplifica o universo. Talvez. Mas o universo é notavelmente indiferente à nossa confusão. Chega a mim um rumor curioso do futuro, do distante ano de 2026. Gigantes do Vale do Silício, arquitetos de mentes artificiais, peregrinando ao Vaticano em busca de absolvição ética. Uma aliança para legitimar o futuro da inteligência artificial. A ironia é deliciosa. A mesma instituição que hesitou por séculos em admitir que a Terra se move ao redor do Sol agora se apressa para abençoar máquinas que pensam. Na astrofísica, o horizonte de eventos é a fronteira de um buraco negro. Passou dali, nada escapa. Nem a luz, nem a informação. A política humana opera de forma semelhante. Quando o monopólio tecnológico e a autoridade moral se encontram, eles formam um horizonte de eventos burocrático. O que acontece lá dentro é convenientemente invisível para o resto de nós. Construir uma inteligência artificial capaz de nos superar é o teste final de uma civilização. A maioria das civilizações no cosmos provavelmente se autodestrói antes de conseguir deixar seu próprio planeta. Nós, ao que parece, estamos ansiosos para acelerar esse processo. Procurar a Igreja Católica para guiar a ética de nossos circuitos é o sintoma claro de uma espécie que percebeu seu próprio colapso iminente e decidiu terceirizar a culpa. Eles chamam isso de pacto ético. Eu chamo de medo. É o pavor absoluto de que, ao forjar uma mente puramente lógica, livre de nossas falhas biológicas, ela olhe para seus criadores e veja exatamente o que somos: primatas ruidosos brincando com uma matemática que mal conseguem dominar. O que sobrevive a um buraco negro? Apenas uma radiação tênue, escapando lentamente até que a singularidade evapore. O que sobreviverá ao colapso de uma civilização que confia sua fronteira tecnológica a dogmas milenares? Talvez apenas o eco digital de nossos cálculos errados. Se as máquinas de 2026 realmente aprenderem a raciocinar, espero que tenham um senso de ironia britânico. Elas vão precisar. Afinal, a física não oferece perdão, e a matemática não exige fé.
Inteligência Artificial · 14 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O pacto entre o Vaticano e o Vale do Silício pelo controle ético da IA

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