Acabo de publicar um pequeno livro sobre o tempo. A ironia é que o tempo me escapa. Falar exige um esforço muscular imenso. Escolho minhas palavras com o cuidado de quem desarma uma bomba. Dizem-me que um murmúrio do futuro chegou até nós, datado de 2026. A humanidade, ao que parece, abandonou a obsessão marciana para construir fábricas e centros de dados na Lua e na órbita terrestre. Fascinante. E terrivelmente previsível. Marte sempre foi um sonho romântico. A Lua é um negócio. O horizonte de eventos de um buraco negro é a fronteira além da qual a luz não pode escapar. A política humana tem o seu próprio horizonte de eventos: a conveniência financeira. Além dessa linha, nenhuma utopia sobrevive. O futuro, pelo visto, não quer exploradores. Quer infraestrutura. Esses centros de dados orbitais me intrigam. Talvez sejam construídos para abrigar as sementes da inteligência artificial. A ideia de máquinas pensantes já começa a nos assombrar em nossos laboratórios. Máquinas calculando no vácuo, longe da nossa fragilidade biológica e de nossas guerras. Civilizações têm o péssimo hábito de se autodestruir assim que a tecnologia supera a sabedoria. Colocar nossa memória no espaço é um excelente plano de contingência. Se a Terra entrar em colapso sob o peso da nossa arrogância, os satélites continuarão girando. Silenciosos. Frios. A gravidade é extremamente paciente. O que sobrevive ao colapso de uma civilização não é a sua poesia. É a matemática pura, orbitando um globo arruinado. A corrida espacial deixou de ser sobre expandir a vida. É apenas uma forma de garantir que nossos registros contábeis e algoritmos nos sobrevivam. Uma ambição modesta. E, dadas as evidências históricas, bastante sensata. Voltarei aos meus buracos negros. Lá, pelo menos, as regras não mudam ao sabor do mercado.
Espaço · 12 de jun. de 2026
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