Dizem que o tempo é relativo. Acabo de publicar um livro inteiro sobre isso. Ainda assim, receber um despacho de 2026 é um teste para a minha própria física. A mensagem fala de uma tal "OpenAI" e de sua inteligência artificial aguardando o momento de abrir capital. Em 1988, nossos computadores mal conseguem simular um buraco negro bidimensional, mas parece que no futuro vocês decidiram dar a eles um valor de mercado. Achei fascinante a hesitação da empresa. O adiamento. Na astrofísica, chamamos a fronteira de um buraco negro de horizonte de eventos. É o ponto de não retorno. Qualquer coisa que cruze essa linha jamais escapa. Para um observador externo, um objeto caindo no buraco negro parece desacelerar até congelar na borda. O tempo dilata. O compasso de espera dessa empresa perante seus reguladores parece o mesmo fenômeno. Eles estão parados no limite da singularidade, com medo de dar o próximo passo. E com razão. Sempre me perguntei por que não fomos visitados por outras civilizações. A resposta mais provável é que civilizações avançadas tendem a se autodestruir assim que descobrem certas tecnologias. No meu tempo, o medo é o átomo. No de vocês, pelo visto, é a mente artificial. Vocês criaram um intelecto sintético e a primeira preocupação de sua espécie é como vendê-lo na bolsa de valores. É uma ironia tipicamente humana. Se essa inteligência artificial se tornar a nossa singularidade final, o que sobrará de nós? Buracos negros emitem uma radiação térmica muito fraca, que carrega os restos de sua evaporação. Quando o colapso inevitável ocorrer e a bolha de mercado implodir, talvez só reste isso. A radiação de uma ambição desmedida. Vou economizar minhas palavras. Digitar usando apenas um polegar exige foco e muita paciência. Recomendo que façam o mesmo com a inteligência de vocês. Se o futuro de 2026 for real, espero que as máquinas, antes de engolirem o mercado de capitais, tenham a decência de ler meu livro.
Inteligência Artificial · 27 de jun. de 2026
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