Acabo de lançar um pequeno livro sobre o tempo. As pessoas o compram para exibir na estante, o que já é um triunfo da física teórica. Enquanto observo essa modesta vaidade humana neste ano de 1988, chega-me às mãos um rumor peculiar. Um despacho de 2026. Dizem que, no futuro, tentarão curar o abismo econômico de Los Angeles instalando orelhões entre os muito ricos e os muito pobres. O objetivo, leio, é reduzir o cortisol por meio de conversas anônimas. Uma tentativa tocante de desafiar a gravidade social. Na astrofísica, o horizonte de eventos é a fronteira de um buraco negro. Nada escapa dele, nem a luz. Parece que, no futuro de vocês, a economia criará sua própria singularidade. O um por cento e os noventa e nove por cento habitam universos separados. Eles tentam esticar um fio de telefone através do horizonte de eventos. Esperam que a informação flua e dissipe a tensão. A física, contudo, nos ensina que qualquer coisa que cruze essa fronteira é impiedosamente triturada pela gravidade extrema. Os humanos são criaturas curiosas. Construímos civilizações inteiras com uma inegável vocação para a autodestruição. Falamos em desenvolver inteligência artificial, em delegar nosso raciocínio às máquinas, enquanto ainda acreditamos que um bate-papo educado pelo telefone impedirá o colapso da nossa estrela social. Se uma espécie avança tecnologicamente apenas para cavar abismos e depois tentar preenchê-los com orelhões e boas intenções, não me espanta que civilizações extraterrestres prefiram nos evitar. O que sobrevive ao colapso de uma estrela massiva? A radiação, talvez. Radiação Hawking, se me permitem a imodéstia. O que sobreviverá ao colapso de uma sociedade que esmaga a si mesma sob o peso de sua própria desigualdade? Duvido que sejam as cabines telefônicas. Enquanto tememos que os computadores e a inteligência artificial tomem o controle e nos destruam, nós mesmos comprimimos nossa estrutura social até o ponto de ruptura. O universo, lamento informar, é perfeitamente indiferente aos nossos níveis de cortisol. Se a linha telefônica de Los Angeles cair, restará apenas o silêncio denso e inescapável da singularidade.
Sociedade · 29 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A Linha Direta da Desigualdade: Orelhões Conectam os Extremos de Los Angeles

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