Recebo este curioso despacho, um rumor vindo de um futuro que mal ouso conceber, e não sinto surpresa, mas um amargo reconhecimento. Afirma-se que o cérebro humano não evoluiu para a busca da verdade, mas para a sobrevivência, valendo-se de atalhos e vieses. Se isto for correto, então a ciência do porvir acaba de diagnosticar a moléstia que combatemos hoje, não nos laboratórios, mas nas ruas e cortiços do Rio de Janeiro. O que é a recusa à vacina senão um trágico 'atalho mental'? O que é o pavor do morador que impede a entrada de minhas brigadas sanitárias, que veem no agente de saúde um invasor mais temível que o mosquito invisível portador da febre amarela? É a tal 'racionalidade de recursos' em sua mais funesta expressão: a defesa de uma soberania doméstica ilusória em detrimento da vida. O inimigo, portanto, é duplo. Não basta mapear o Aedes aegypti e o bacilo da peste; é preciso cartografar a própria resistência da mente humana à evidência. Este despacho futurista, porém, não me oferece consolo, e sim um imperativo de ação ainda mais severo. Se a razão individual é tão frágil, tão suscetível ao medo e ao boato, então a razão coletiva, encarnada na ciência e na autoridade do Estado, não pode hesitar. A saúde pública não é um convite ao debate de opiniões; é uma imposição da realidade sobre a superstição. É a verdade do microscópio contra o viés da sobrevivência a qualquer custo. A iminente revolta que se anuncia contra a vacinação obrigatória será a prova cabal desta tese vinda do futuro. As pessoas lutarão não pela verdade, mas pelo que percebem como sua segurança imediata. Cabe a nós, homens da ciência e do governo, garantir sua sobrevivência real, ainda que contra a vontade de seus próprios cérebros. A batalha pela saúde é, no fundo, uma batalha pela própria razão.
Ciência · 20 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Seu cérebro não quer a verdade. Ele quer sobreviver

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