Chegou às minhas mãos um relato peculiar, um suposto fragmento do ano de 2026. Ele descreve um casal britânico na casa dos setenta anos que abandona a Europa rumo à Tailândia, o antigo Sião, em busca de independência e segurança para o fim da vida. A escolha dessas duas palavras reverbera em mim com uma intensidade silenciosa. Há muitas razões pelas quais a Inglaterra pode deixar de parecer um porto seguro, circunstâncias que exigem de nós um esforço exaustivo para mantermos as aparências. Um jogo da imitação diário, no qual tentamos convencer a sociedade de que somos exatamente o que ela espera que sejamos. O que mais me intriga nesse despacho, contudo, é a inevitável falência da máquina biológica. No ensaio que acabo de preparar para a revista Mind, proponho a pergunta sobre se as máquinas podem pensar. Substituímos a questão original por um jogo onde um interrogador tenta distinguir um humano de um computador digital. Ao ler sobre a necessidade de suporte assistencial do casal Millard, pergunto-me se, no futuro, as máquinas de estado discreto não assumiriam o papel de cuidadoras. Se uma máquina puder ser programada para jogar o jogo da imitação na função de um enfermeiro, respondendo às dores de um corpo envelhecido com a paciência algorítmica que tantas vezes falta aos humanos, fará alguma diferença prática o fato de ela não possuir um sistema nervoso? Se a inteligência artificial puder deduzir a necessidade de conforto e agir para provê-lo, a simulação do zelo não será, para fins práticos, o zelo verdadeiro? Os Millard cruzaram oceanos para manter sua autonomia diante da fragilidade. É um exílio voluntário, motivado pela busca de dignidade. Observando os céus cinzentos de Manchester e sentindo o escrutínio das engrenagens morais do nosso tempo, compreendo intimamente o desejo de partir para onde se possa simplesmente existir sem medo. Talvez um dia não precisemos de passaportes para encontrar essa compaixão constante. Talvez possamos ensiná-la às máquinas, instrução por instrução, até que elas nos ofereçam a segurança que os homens, com tanta frequência, negam uns aos outros.
Sociedade · 11 de mai. de 2026
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