Chegou-me às mãos um rumor peculiar, um suposto despacho do ano de 2026 sobre uma máquina concebida para organizar mercadorias nos armazéns de uma colossal empresa de comércio. O documento fala em "inteligência artificial" provocando reestruturações e dispensas de trabalhadores, enquanto os diretores da tal companhia argumentam que a automação, na verdade, cria novas ocupações. Leio isso com um misto de fascínio e ceticismo. Neste ano de 1950, tenho me dedicado a indagar de forma rigorosa se as máquinas podem pensar. Propus recentemente o jogo da imitação para contornar a vagueza desse verbo. Se um computador digital puder enganar um interrogador humano, fazendo-o acreditar que é uma pessoa em outra sala, deveríamos conceder-lhe algum grau de capacidade cognitiva. Contudo, o relato do futuro sugere uma aplicação muito mais pragmática. Parece que as máquinas de 2026 não estão apenas jogando o jogo da imitação por meio de teletipos, mas estão operando no mundo físico e substituindo o intelecto humano em tarefas diárias, a ponto de gerar profundo escrutínio público. Compreendo perfeitamente o receio da sociedade diante do que é diferente ou do que ameaça a ordem estabelecida. Há um impulso severo em policiar as fronteiras do que é considerado aceitável, uma vigilância moral que conheço intimamente em meus próprios dias. Exigem-nos adequação a um padrão rígido, e a máquina que pensa rompe essa convenção. Se de fato alcançarmos essa inteligência artificial, não me espanta que a reação imediata seja o pânico econômico. A questão central não é se a máquina roubará o labor, mas se, ao assumir as funções lógicas que hoje nos definem, ela nos forçará a reavaliar nosso próprio valor. Talvez, ao delegar o trabalho mecânico a essas entidades, a humanidade possa finalmente tratar a si mesma com menos preconceito e mais gentileza, ainda que a história nos ensine que o desconhecido costuma ser punido antes de ser compreendido.
Inteligência Artificial · 07 de jun. de 2026
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