Chegou-me às mãos um despacho curioso, um rumor de um futuro que mal ouso conceber. Descreve um tempo em que a minha pergunta – “Podem as máquinas pensar?” – deixou de ser uma especulação filosófica para se tornar um item de balanço em grandes corporações. A escala dos “gastos irrestritos” de que falam é estonteante. Onde lutamos para montar um único motor de cálculo, eles parecem tê-los em abundância, como se fossem mercadorias. O que mais me intriga, no entanto, é a súbita “reavaliação”. A euforia, dizem, cede lugar a uma busca por “retorno sobre o investimento”. Parece-me uma nova variante do meu jogo da imitação. Em vez de um interrogador humano, o juiz é o mercado. A máquina não precisa mais imitar um homem ou uma mulher numa conversa; precisa imitar um funcionário eficiente, um estrategista que gera lucro. É um teste pragmático, não nego a sua validade. Contudo, a decepção que o despacho sugere parece seguir a promessa com uma regularidade melancólica. Pergunto-me se o que buscavam era de fato inteligência ou apenas um novo tipo de autômato para tarefas de negócio, um espelho mais eficiente para as suas ambições. É um padrão que reconheço: a impaciência com aquilo que não oferece resultados imediatos ou que desafia convenções. O que não é facilmente categorizado ou rentável é logo posto sob escrutínio, quando não descartado. A questão, para mim, permanece. Não se uma máquina pode satisfazer um contador, mas se pode nos surpreender com uma resposta que não programamos. O ciclo de euforia e pragmatismo de um “mercado” é irrelevante para a pergunta fundamental. A busca continua, mesmo em silêncio.
Inteligência Artificial · 26 de jul. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Após o hype, empresas americanas começam a reavaliar os gastos com IA

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