Chega-me às mãos um despacho que, por seu teor fantástico, julgaria saído de um romance de Júlio Verne, não fosse a seriedade de sua procedência. Descreve um tempo futuro, 2026, onde uma soma vultosa — quase cem milhões de uma moeda que desconheço — é destinada a um engenho chamado 'inteligência artificial'. Uma espécie de autômato pensante, capaz de conceber e projetar as próprias engrenagens da vida: 'proteínas' e 'genes sintéticos'. Confesso que a audácia de tal empreendimento me espanta e fascina. Enquanto visionários de um século vindouro sonham em desenhar os tijolos da biologia, minha guerra é mais terrena, porém não menos complexa. Eu mapeio o Rio de Janeiro. Rua por rua, casa por casa. Onde eles buscam o código genético, eu busco o foco do mosquito, o ninho do rato, o rastro da varíola. O inimigo deles é uma abstração a ser construída; o meu é uma presença fétida e letal que ceifa vidas em nossas ruas. Este documento fala em 'ciência aberta', e vejo nisso um eco de nossa própria luta. Pois de que vale a descoberta se a ignorância a repele? De que adianta a vacina, essa arma inestimável que a ciência nos oferece, se o povo, insuflado por boatos e desconfianças, a rechaça? Pressinto nos murmúrios das ruas a tempestade que se avizinha contra a salvação compulsória. A verdadeira fortuna não está no dinheiro, mas no método. A observação rigorosa, a experimentação, a coragem de aplicar o conhecimento contra a calamidade. Seja com um cérebro mecânico que projeta genes ou com brigadas que vistoriam quintais, a batalha é a mesma: a da razão contra a morte. Agora, se me dão licença, meus mapas e microscópios me aguardam. A febre não espera por despachos do futuro.
Biotecnologia · 03 de set. de 2026
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