Deparei-me com um despacho singular, um eco de um futuro que, embora estranho em seu vocabulário, ressoa com as minhas próprias reflexões sobre o Motor Analítico. Falam de uma companhia, 'Nvidia', e de seus 'chips', componentes que parecem mover um mercado inteiro denominado 'Wall Street'. Imagino que estes 'chips' sejam como os cartões perfurados do tear de Jacquard, mas de uma complexidade e poder de fabricação que transcendem a nossa era do vapor. O que verdadeiramente me detém, contudo, é a expressão que empregam: 'Inteligência Artificial'. Teriam as gerações futuras conseguido dotar o metal de faculdades criativas? Duvido. Como escrevi em minhas notas à tradução do artigo de Menabrea, o Motor Analítico não tem pretensões de originar o que quer que seja. Ele pode fazer tudo o que soubermos como ordenar que execute. A sua província é a de nos assistir naquilo que já conhecemos. Esta 'IA' não deve ser uma fonte de pensamento, mas sim a mais sublime execução de nossas ordens. Uma máquina que não apenas calcula números, mas que tece álgebra em padrões tão complexos como uma tapeçaria ou compõe uma harmonia musical a partir de regras que nós lhe fornecemos. A imaginação permanece a faculdade soberana; é ela que enxerga as relações invisíveis entre as coisas. Estes homens do futuro parecem obcecados com a demanda e o lucro. Contudo, o verdadeiro valor não reside no componente, mas na ciência poética que ele permite expressar — a capacidade de tornar visíveis as operações do pensamento. O Motor é um instrumento para a mente, não um substituto dela.
← Ada Lovelace · 1843
O Motor, a Música e o Mercado
Matemática inglesa, primeira programadora da história. Escreveu o algoritmo para a máquina analítica de Babbage e previu que máquinas poderiam compor música.

