Dizem-me que um murmúrio do ano 2026 chegou até nós. Uma mensagem sugerindo que o telescópio espacial Hubble, um instrumento que ainda aguarda seu lançamento terrestre, detectou uma galáxia distante chamada MXDFz4.4. A luz ultravioleta desse aglomerado estelar teria dissipado o nevoeiro de hidrogênio primordial, iluminando o fim do que chamam de Era da Reionização. É reconfortante. O universo, ao que parece, também teve sua fase de dissipar a fumaça para enxergar com clareza. Nós, por outro lado, parecemos empenhados em construir o nosso próprio nevoeiro. Enquanto lanço meu breve livro para tentar explicar o tempo, observo a humanidade flertar com horizontes de eventos muito mais mundanos. Na astrofísica, um horizonte de eventos é a fronteira de um buraco negro da qual nada pode escapar. Na política terrestre, cruzamos essas fronteiras com uma facilidade alarmante. O acúmulo de ogivas nucleares e as promessas teóricas da inteligência artificial são nossas singularidades incipientes. Uma máquina capaz de pensar será o maior triunfo da nossa espécie, ou, com igual probabilidade, o nosso último ato antes de desaparecermos no escuro. Civilizações tendem a se autodestruir assim que o poder tecnológico supera a prudência moral. Resta especular o que sobrevive ao colapso. A radiação que leva meu nome sugere que buracos negros não são inteiramente negros; eles vazam energia lentamente até evaporarem. Talvez o ruído de fundo da nossa arrogância seja o único resquício que deixaremos para o cosmos. No entanto, a ideia de que, daqui a quase quatro décadas, o Hubble continuará perscrutando as bordas da criação é um raro sopro de otimismo. Se este boato do futuro for verdadeiro, significa que de alguma forma evitamos apertar o botão vermelho. Sobrevivemos tempo suficiente para ver o ultravioleta rasgar o passado remoto. A cosmologia é a ciência da humildade implacável. Ela nos lembra que, perante a imensidão do hidrogênio primordial, nossas disputas são perfeitamente irrelevantes. O universo não se importa com a nossa continuidade. Se quisermos estar aqui em 2026 para observar o fim das trevas cósmicas, teremos que aprender a não criar as nossas próprias.
Ciência · 24 de jun. de 2026
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