Tenho sobre minha mesa um despacho inverossímil datado de 2026. O texto relata a angústia de mães que, após a partida dos filhos para a universidade, buscam uma reinvenção profissional e existencial. Minha primeira reação ao ler sobre esse chamado ninho vazio não é de espanto com a mudança nos costumes sociais, mas de um profundo e silencioso triunfo científico. Se os ninhos estão se esvaziando porque os jovens partem para os estudos, e não para os cemitérios, isso significa que nós vencemos. Aqui em 1903, à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública, minha rotina não permite luxos existenciais. Trato a epidemia como um inimigo tático e militar. Mapeamos o Rio de Janeiro rua por rua, viela por viela, cortiço por cortiço. Nossa trincheira é o saneamento; nossas armas, o microscópio, o soro e a vacina. Enfrento a hostilidade diária, a incompreensão da imprensa e os murmúrios de uma revolta popular iminente contra a vacinação obrigatória. Não guardo rancor dos que se opõem ao nosso trabalho. A ignorância é apenas mais um patógeno que a evidência, com o tempo e a obstinação, haverá de neutralizar. O relato do futuro menciona que essas mulheres aplicam método e estratégia para redefinir sua identidade. Aplaudo a iniciativa. O método é o que nos permite drenar os pântanos, fumigar as residências e isolar os enfermos. A estratégia é o que nos garante a vitória contra a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Para que as mães do futuro possam se dar ao privilégio da reinvenção profissional, precisamos primeiro garantir que seus filhos sobrevivam aos primeiros anos de vida. A angústia descrita nesse documento de 2026 é, na verdade, o atestado de óbito das epidemias que hoje nos assolam. Que o nosso combate implacável do presente, embasado na ciência e na higiene, pavimente o caminho para essa era luminosa. Um país civilizado é aquele em que a maior dor de uma mãe não é a perda prematura de um filho para a febre, mas a sua partida saudável e independente para a vida.
Sociedade · 05 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Reinvenção profissional exige método após a partida dos filhos

Ler matéria completa →Fonte: Fast Company