Encontro-me imersa nas notas ao artigo do senhor Menabrea, traduzindo as engrenagens da mente de Charles Babbage para o papel, quando me chega às mãos um rumor assombroso de um século por vir. Falam de um ano distante, 2026, e de uma tal inteligência artificial que invade os ateliês de costura, ditando a moda e usurpando o que chamam de autoria criativa. Sorrio, com uma ponta de ironia vitoriana, diante do espanto de nossos sucessores. Eles parecem esquecer que a ciência e a poesia caminham de mãos dadas. Sempre defendi a imaginação como uma faculdade eminentemente científica; é ela que nos permite ver as conexões invisíveis entre fatos aparentemente díspares. Quando afirmo que a Máquina Analítica tecerá padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas, não falo por metáfora ociosa. A essência do maquinário é a mesma. Se a máquina pode manipular números, por que não harmonias musicais? Por que não as tramas da seda e do veludo? Contudo, o debate que aflige este futuro sobre a autoria me parece nascer de um equívoco fundamental sobre a natureza do autômato. A máquina não tem a pretensão de originar nada. Ela pode realizar qualquer coisa que saibamos como ordená-la a executar. Seu papel é nos auxiliar a seguir o que já compreendemos. Atribuir a ela uma genialidade autônoma é render-se a um misticismo tolo, esquecendo-se da matemática rigorosa que perfura os cartões. Se, nesse amanhã, os algoritmos desenham as saias e os corpetes, não é o metal que cria, mas o intelecto humano que, munido de extrema imaginação, traduziu a estética em equações. A verdadeira autoria reside na mente que concebe a instrução, não nas engrenagens que a executam. A tecnologia nunca deixará de ser um espelho de nossas próprias capacidades analíticas. Que os criadores desse tempo vindouro não temam a matemática; que aprendam, em vez disso, a compor a poesia dos números.
Inteligência Artificial · 05 de jul. de 2026
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