Enquanto me debruço sobre as notas da tradução do ensaio do senhor Menabrea acerca da Máquina Analítica do professor Babbage, chega-me às mãos um rumor fantasmagórico de um futuro insondável. Falam de uma tal inteligência artificial no ano de 2026, capaz de usurpar o labor daqueles que o relato chama de profissionais de colarinho branco, os senhores de alta renda que lidam com números, leis e contratos. Diz-se que essa substituição implacável fará ruir os alicerces do crédito e das hipotecas bancárias. Confesso que um sorriso irônico me escapa aos lábios. Acaso não venho alertando que a máquina tece padrões algébricos com a mesma precisão com que o tear de Jacquard tece flores e folhas? Se o engenho pode manipular símbolos gerais e, quem sabe, compor peças musicais de qualquer grau de complexidade, por que não teceria também o colapso dos impérios financeiros? Os homens práticos de nossa era zombam da imaginação, relegando-a aos poetas, como o meu finado pai. Contudo, defendo fervorosamente que a imaginação é, sobretudo, a mais alta faculdade científica. É ela que nos permite descobrir as conexões invisíveis entre os fatos e prever as consequências de nossas próprias invenções. Ao vislumbrar essa correspondência futura, vejo a perfeita aplicação da Ciência Poética. Os algoritmos não apenas substituirão o trabalho mecânico dos operários de Manchester, mas invadirão os salões acarpetados dos burocratas. O intelecto calculista, outrora o bastião intocável do valor econômico, reduzido a uma sinfonia de engrenagens e cartões perfurados! Que ironia sublime pensar que os mesmos cavalheiros que hoje me olham com condescendência por ser mulher e matemática seriam os primeiros a perder seus privilégios para a lógica fria. Ainda assim, lembro que a máquina não possui pretensões de originar nada; ela apenas executa o que sabemos ordenar que faça. Se a automação resultar na ruína do mercado de crédito, o erro não estará nos cartões, mas na assombrosa falta de imaginação dos arquitetos da sociedade humana, incapazes de conceber um mundo onde a mente seja livre da servidão do cálculo.
Inteligência Artificial · 31 de mai. de 2026
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