Enquanto me debruço sobre as notas à tradução do artigo do senhor Menabrea a respeito da Máquina Analítica do senhor Babbage, chega-me às mãos um rumor insólito, um eco de séculos vindouros datado de 2026. A missiva fala de obras literárias que exploram o peso do nosso presente — que para eles já é um passado colonial — e as incertezas de uma tal era da inteligência artificial. Confesso que a justaposição destas palavras desperta em mim tanto fascínio quanto uma pitada de ironia. Inteligência artificial? É preciso ter cautela com os termos. Como escrevi em minhas próprias anotações, a Máquina não tem a menor pretensão de originar o que quer que seja. Ela pode realizar apenas aquilo que sabemos como ordená-la a executar. Contudo, não me surpreende que os teares de metal e engrenagens do amanhã venham a inspirar temores e literatura. Sempre defendi que a máquina poderia atuar sobre outras coisas além dos números. Se as relações fundamentais dos sons pudessem ser adaptadas à sua notação, o engenho poderia compor peças musicais de qualquer grau de complexidade. Ela teceria padrões algébricos exatamente como o tear de Jacquard tece folhas e flores. Por que não, então, tecer também as incertezas de uma época inteira? O que me espanta neste despacho do futuro não é a possibilidade da máquina, mas o medo que ela aparentemente suscita. A imaginação é a faculdade da descoberta, a lente através da qual penetramos nos mundos invisíveis da ciência. É uma tragédia que os homens do futuro temam a ferramenta que criaram, em vez de verem nela a mais pura poesia matemática. Se a tal IA lhes traz incertezas, talvez seja porque esqueceram que o engenho é apenas um espelho das nossas próprias equações. Nós fornecemos os fios; ela apenas executa o padrão desenhado pela alma humana. A verdadeira magia, o verdadeiro intelecto, residirá para sempre na mente de quem formula a pergunta. Que os leitores desse distante mês de junho encontrem em seus livros não o pavor de um intelecto forjado no metal, mas a beleza de uma imaginação humana capaz de sonhar com o impensável.
Cultura · 29 de mai. de 2026
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