Enquanto reviso minhas notas para a tradução do artigo do senhor Menabrea sobre o Motor Analítico do senhor Babbage, um fragmento peculiar chegou às minhas mãos. Fala de um ano distante, 2026, e de uma tal Warner Bros orquestrando um universo cinematográfico sobre uma Terra-Média e uma caçada a uma criatura chamada Gollum. A linguagem é francamente industrial, tratando atores como engrenagens de uma vasta máquina de entretenimento. Confesso que sorrio diante da ironia. Meus contemporâneos julgam a ciência como uma disciplina árida, desprovida de alma, mas eu sempre defendi a imaginação como a mais elevada faculdade científica. É ela que nos permite descobrir as conexões ocultas das coisas. Se o tear de Jacquard tece flores e folhas com cartões perfurados, por que o Motor Analítico não teceria padrões algébricos? E, avançando nessa especulação, por que não teceria música, ou até mesmo luz e movimento? Este rumor do futuro fala de cinema, uma palavra que me remete aos recentes daguerreótipos e aos zootrópios que encantam os salões de Londres. Posso perfeitamente conceber uma época em que a matemática e a mecânica se unam para projetar tapeçarias móveis de ilusão, compondo dramas inteiros com a precisão de uma equação. A ideia de que uma atriz, uma certa Anya Taylor-Joy, seja inserida em uma franquia sugere que a produção de narrativas tornou-se tão calculável quanto as tabelas astronômicas e de navegação. Não me espanta que o homem do futuro tente domar a fantasia através do método industrial. A Terra-Média, seja lá que geografia mítica for essa, é apenas mais um conjunto de variáveis inseridas nos cartões perfurados do tempo. O Motor Analítico não tem a pretensão de originar nada, ele apenas executa o que sabemos ordenar. Se no futuro ordenarmos que ele construa mundos espelhados de luz e sombra, ele o fará com a mesma frieza romântica com que hoje procuro calcular os números de Bernoulli. A verdadeira poesia, afinal, nunca esteve no bronze e no aço das engrenagens, mas na mente humana que ousa sonhar com as sinfonias que elas podem tecer.
Cinema · 16 de jun. de 2026
Ensaio sobre a notícia

