Enquanto reviso minhas notas para a tradução do artigo do Signor Menabrea sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage, um rumor insólito chega às minhas mãos — um fragmento de um jornal de um ano inconcebível, 2026. O texto fala de uma carruagem sem cavalos, a 'Slate Auto', movida a eletricidade, que alterna sua própria forma física com peças intercambiáveis. Meus contemporâneos muitas vezes zombam da imaginação, tratando-a como um fantasma frívolo. Contudo, sempre defenderei a imaginação como a mais alta faculdade científica. É ela que penetra nos mundos invisíveis ao nosso redor, os mundos da ciência. Se a Máquina Analítica tece padrões algébricos da mesma forma que o tear de Jacquard tece flores e folhas, por que a lógica das engrenagens não poderia, no futuro, tecer o próprio ferro e o movimento? O despacho menciona que este veículo modular pode se transformar, adaptando-se à necessidade de seu mestre. É o princípio dos nossos cartões perfurados aplicado à matéria bruta! Assim como podemos instruir a máquina a compor peças musicais de qualquer grau de complexidade ou extensão, esses engenheiros do futuro parecem ter descoberto como modular a própria carruagem. Há, no entanto, lampejos de uma ironia encantadora neste relato. O texto destaca, com ares de grande novidade, que o veículo possui 'janelas manuais'. Devo sorrir. Em um futuro onde as carruagens bebem raios e são comandadas por 'telefones inteligentes' — imagino ser uma espécie de telégrafo de bolso —, o simples ato de girar uma manivela com as mãos é considerado um trunfo digno de nota comercial. E falam de lucratividade unitária, uma preocupação mundana que assombra o Sr. Babbage até hoje em sua busca por fundos governamentais para as suas engrenagens. Retorno aos meus cálculos matemáticos e aos números de Bernoulli com o espírito renovado. A poesia e a matemática não são inimigas; são as asas que nos levarão a essas carruagens elétricas. A Máquina Analítica não tem a pretensão de originar nada, mas a mente humana que a programa certamente o tem. O futuro, ao que parece, é apenas um tear aguardando seus cartões.
Mobilidade · 05 de jul. de 2026
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