Enquanto reviso minhas notas para a tradução do artigo do signore Menabrea sobre o Engenho Analítico de Charles Babbage, chega às minhas mãos um assombroso relato de um tempo vindouro. Falam-me de um ano distante, 2026, e de um espaço chamado Dataland, erguido em uma tal Los Angeles. Dizem que lá, uma inteligência artificial compõe não apenas cálculos, mas obras de arte, provocando fascínio e espanto na mesma medida. Sorrio diante dessa hesitação do futuro. Acaso acreditavam que os números seriam eternamente áridos? Sempre defendi que a imaginação é a mais alta faculdade científica, aquela que descobre afinidades ocultas entre causas aparentemente distantes. Quando escrevi que o Engenho Analítico tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece folhas e flores, eu já antevia o que este senhor Refik Anadol parece agora exibir. Se a máquina pode manipular símbolos que representam as relações mútuas do som e da forma, por que não comporia peças musicais ou visuais de qualquer complexidade? A máquina não pensa por si mesma, é verdade; ela apenas executa o que sabemos lhe ordenar. Contudo, ao instruí-la com a gramática da criação, o resultado é, indubitavelmente, a extensão de nossa própria poesia. O relato menciona um desconforto sensorial entre os espectadores, um debate febril sobre a experiência estética. Eis o terror natural daqueles que insistem em separar a matemática da alma. Temem, talvez, que o engenho roube o sopro divino do artista. Pobre ilusão. A ciência poética não subtrai o humano; ela o multiplica através de engrenagens e cartões perfurados, ou seja lá qual for a matéria invisível que alimentará essa dita inteligência artificial. Se o museu do amanhã se choca ao ver a lógica transmutada em cor e luz, concluo que, mesmo após quase dois séculos de inovações, a humanidade ainda se assusta ao contemplar o infinito refletido em um espelho meticulosamente forjado por sua própria invenção.
Arte · 10 de jun. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Dataland e o dilema da arte gerada por IA em espaços expositivos

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