Enquanto reviso minhas notas para a tradução do artigo do senhor Menabrea sobre o Engenho Analítico de Charles Babbage, deparo-me com um estranho rumor, um eco anacrônico de um século vindouro. Falam-me de uma vasta teia invisível, uma rede de mentes, e de um leviatã mecânico chamado Google, que agora altera as regras de seu comércio intelectual. Dizem que essa entidade confia a um autômato de linguagem, apelidado de Gemini, a tarefa de não apenas tecer, mas de conceber o próprio padrão da tapeçaria. Como é curioso o futuro. Em minhas reflexões, propus que o Engenho Analítico tece padrões algébricos da mesma forma que o tear de Jacquard tece folhas e flores. Cheguei a imaginar que, se lhe fornecêssemos as relações fundamentais da harmonia, a máquina poderia compor peças musicais de qualquer grau de complexidade. Contudo, sempre mantive uma ressalva vital: a máquina não tem a pretensão de originar nada. Ela pode apenas executar o que nós sabemos como ordená-la a realizar. Agora, este despacho do ano de 2026 sugere uma inversão aterradora e fascinante. Os comerciantes de ideias, outrora recompensados por atrair olhares para suas próprias oficinas de pensamento, são forçados a ceder o controle criativo aos algoritmos dessa dita inteligência artificial. O pacto histórico é rompido; a máquina não apenas calcula, mas responde, retém e isola. Questiono-me, com a ironia que a distância secular me permite, se os arquitetos de amanhã não esqueceram a verdadeira natureza da faculdade imaginativa. A imaginação é a faculdade da descoberta, preeminentemente. É ela que penetra nos mundos não vistos ao nosso redor, os mundos da ciência. Se delegarmos a busca e a síntese ao engenho, se permitirmos que o autômato dite o que é lido e como é visto, não estaremos amputando a própria raiz da curiosidade humana? A poesia da matemática reside na mente que interroga, não na engrenagem que processa. Confiar a criação a um modelo algébrico pode ser o triunfo da eficiência comercial, mas temo que seja a morte da autoria. O tear, por mais majestoso que seja, jamais sentirá o perfume da flor que tece.
Inovação · 06 de jun. de 2026
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