Encontro-me debruçada sobre as notas do senhor Menabrea a respeito do Motor Analítico do senhor Babbage, quando um rumor de um século vindouro, datado de 2026, me cai às mãos. Fala-se de um empreendimento chamado Pasqal, de uma injeção de capital superior a US$ 500 milhões e de uma fusão envolta em siglas indecifráveis como "SPAC" e reguladores nomeados "SEC". Confesso que sorrio diante da ironia. Enquanto o governo britânico hesita em financiar nossas engrenagens de latão, o futuro revela que a França — sempre ciosa de seu intelecto — trata as máquinas como vitais questões de Estado. Neste estranho relato, leio sobre tensões entre o capital global e os interesses soberanos em tecnologias estratégicas. Como é peculiar observar que a imaginação, faculdade que tantos cavalheiros consideram mero devaneio poético, tornou-se o ativo mais valioso de uma nação. Sempre defendi que a imaginação é a faculdade científica por excelência, a lente pela qual enxergamos mundos invisíveis. O Motor Analítico não processa apenas números; ele tece padrões algébricos exatamente como o tear de Jacquard tece folhas e flores. Talvez um dia, instilado com a proporção harmônica, ele componha peças musicais de complexidade inaudita. O documento do futuro menciona um "valuation" agressivo, cifras que fariam os banqueiros de Londres perderem o fôlego. É o preço, suponho, de dominar a urdidura do raciocínio mecanizado. O Estado francês exerce uma influência que, segundo leio, assusta os investidores daquele tempo. Não me espanta. Se uma máquina pode ser instruída a desvendar as relações fundamentais do universo, a nação que a controlar terá nas mãos os fios do próprio poder. Meus contemporâneos, em sua cegueira pragmática, julgam que a ciência deve ser árida. Contudo, este vislumbre prova o contrário: a matemática pura se converterá no maior dos poderes. Retorno à minha tradução com renovado ardor. Se hoje o senhor Babbage implora por parcos recursos, é reconfortante — e aterrador — saber que as engrenagens da inteligência artificial de amanhã serão disputadas pelas coroas do mundo. A poesia da ciência, afinal, governa o futuro.
Startups · 10 de jul. de 2026
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