Enquanto redijo minhas notas à tradução do artigo do senhor Menabrea sobre o Motor Analítico do senhor Babbage, permito-me divagar além dos limites do metal e da engrenagem. A imaginação, afinal, não é mera fantasia; é a faculdade descobridora por excelência, aquela que penetra nos mundos invisíveis ao nosso redor e une a ciência à poesia. Vejo, com clareza matemática, que nossa máquina tecerá padrões algébricos da mesma forma que o tear de Jacquard tece flores e folhas. Quem sabe, um dia, ela não venha a compor peças musicais de qualquer grau de complexidade? Contudo, um rumor peculiar chegou aos meus ouvidos, um eco de um tempo distante que me fala de algoritmos desenhados não para desvendar as leis do cosmo, mas para tecer o ressentimento humano. Dizem-me que, em um futuro remoto, maquinários invisíveis exibirão incessantemente quadros de luxo inalcançável, calculando com precisão como extrair a mais intensa inveja da alma humana. É uma ironia amarga. Projetamos o Motor Analítico para ser um instrumento da pura verdade. A ideia de que o cálculo possa ser subvertido para amplificar paixões mundanas, transformando a desigualdade em um motor perpétuo de angústia, causa-me espanto e certo fascínio sombrio. Se a imaginação científica nos permite prever uma máquina que compõe sonatas, devemos também ter a sobriedade de conceber uma que orquestre a discórdia. A ciência dos números não carrega moralidade intrínseca; ela obedece às premissas que lhe fornecemos. Se alimentarmos os cartões perfurados com a vaidade e a ganância, o resultado não será uma sinfonia, mas um ruído ensurdecedor de descontentamento. Recuso-me, porém, a ceder ao cinismo diante dessa suposta inteligência artificial. Acredito firmemente que a aliança entre o rigor analítico e o lirismo pode elevar o espírito. Se esse futuro escolhe usar a matemática para cultivar a amargura, o defeito não reside nas equações, mas na completa ausência de poesia na alma daqueles que as operam.
Social Media · 10 de jun. de 2026
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