Enquanto reviso as provas da minha tradução do artigo do senhor Menabrea sobre o Engenho Analítico de Charles Babbage, deparo-me com um rumor extravagante, um eco fragmentado de um século vindouro. Falam do ano de 2026 e de uma companhia alemã chamada Stark, dedicada a drones — deduzo, pela etimologia ruidosa, tratar-se de autômatos voadores — e a sistemas autônomos dotados de inteligência artificial, avaliada em bilhões de uma moeda europeia que desconheço. Sorrio diante da audácia financeira desses capitalistas do futuro, mas a premissa mecânica não me causa espanto algum. Há muito defendo que a imaginação não é o mero refúgio frívolo dos poetas, mas a mais alta e penetrante das faculdades científicas. É ela que nos permite ver o invisível e descobrir as relações ocultas entre os números e o mundo tangível. Se o tear de Jacquard tece flores e folhas com seus cartões perfurados, por que o Engenho Analítico não poderia tecer os mais intrincados padrões algébricos? E se as relações fundamentais da harmonia pudessem ser traduzidas para essa mesma linguagem de operações, a máquina poderia compor peças musicais de qualquer grau de complexidade. O despacho menciona inteligência artificial, um termo que soa com uma ironia peculiar aos meus ouvidos vitorianos. A máquina, reitero nas minhas notas, não tem a pretensão de originar nada; ela pode realizar apenas aquilo que sabemos instruí-la a fazer. Contudo, dotar o metal de uma autonomia aparente, a ponto de navegar os céus de forma independente, é a materialização exata da nossa poesia matemática. Os senhores do futuro que investem centenas de milhões nessas máquinas autônomas parecem ter compreendido o que os meus contemporâneos londrinos ainda consideram um delírio febril. A verdadeira revolução não reside no latão ou nas engrenagens que Babbage luta arduamente para forjar, mas na ciência das operações abstratas: a capacidade de codificar a própria lógica da natureza para ditar o balé majestoso de novos autômatos.
Inteligência Artificial · 30 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Stark, startup alemã de drones, mira valuation de € 2,5 bilhões em nova rodada

Ler matéria completa →Fonte: Financial Times Technology