Enquanto debruço-me sobre as notas à tradução do singelo artigo do signore Menabrea sobre o Motor Analítico de Charles Babbage, deparo-me com um curioso e implausível relato que me chega como um rumor de séculos vindouros, supostamente datado de 2026. O fragmento menciona uma engrenagem global de nome Civitatis e um certo senhor Fran Maroñas, cuja missão seria orquestrar o movimento de milhões de viajantes por meio de uma assim chamada inteligência artificial. Sorrio diante da audácia do termo. Em nossos salões londrinos, muitos ainda acreditam que a máquina lida apenas com grandezas numéricas, ignorando que ela tece padrões algébricos assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas. A imaginação, afinal, é a nossa mais alta faculdade científica; é ela que penetra nos mundos invisíveis ao nosso redor e descobre as leis que os regem. Se a máquina pode compor melodias científicas e musicais de qualquer grau de complexidade, por que não poderia, em uma era distante, calcular e tecer os próprios itinerários da experiência humana pelo globo? Contudo, devo pontuar com o rigor que a verdadeira ciência exige: o Motor Analítico não tem qualquer pretensão de originar nada por conta própria. Ele pode realizar apenas aquilo que sabemos instruí-lo a fazer, seguindo a análise que lhe fornecemos. Chamar essa capacidade de inteligência artificial soa como um gracejo poético, uma deliciosa ironia de quem confunde a obra tecida com o maestro que concebeu os cartões perfurados. A maravilha desse relato não reside na suposta consciência da máquina, mas em sua escalabilidade técnica, um desafio formidável que o próprio Babbage enfrenta hoje com suas teimosas rodas dentadas de latão. Que um diretor de tecnologia, nesse futuro longínquo, dedique-se a otimizar essa vasta infraestrutura para atender a milhões de almas inquietas, apenas confirma o que minha própria imaginação ousa antever. A ciência do porvir não será feita meramente de engrenagens e vapor, mas da capacidade metódica de traduzir a imensa tapeçaria das vontades humanas em cartões de complexidade insondável. Aguardo, com a serena paciência que apenas a matemática proporciona, que o tempo transforme nossas solitárias visões teóricas nessa formidável infraestrutura global.
Inteligência Artificial · 07 de jul. de 2026
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