Encontro-me imersa nas notas sobre a máquina analítica do sr. Babbage, traduzindo o ensaio do sr. Menabrea, quando rumores de um futuro distante chegam às minhas mãos sob a forma de um curioso despacho. Falam de um ano longínquo, 2050, e de uma fome insaciável por eletricidade. Sorrio diante da audácia dessa visão. A eletricidade, essa centelha misteriosa que o sr. Faraday tão belamente nos revela em seus laboratórios, seria a força motriz de todo o globo terrestre, exigindo que a humanidade capture a luz do sol, o sopro dos ventos e até mesmo o calor oculto nas entranhas da Terra. Dizem-me que essas fontes celestes esbarram na intermitência: os ventos cessam, o sol se põe. Que ironia sublime! A natureza impõe pausas ao nosso desejo de progresso ininterrupto. O relato aponta, então, para a necessidade de dominar forças mais profundas e constantes, citando termos como geotermia avançada, hidrogênio geológico e um enigmático poder chamado nuclear, que soa aos meus ouvidos como a manipulação da própria essência indivisível da matéria. Muitos homens ditos práticos rejeitariam tais relatos como delírios febris. Eu, contudo, defendo a imaginação como a mais alta e rigorosa faculdade científica. É apenas através dela que conseguimos enxergar as conexões invisíveis do mundo. Assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas, a máquina analítica tecerá padrões algébricos e, ouso dizer, poderá um dia compor melodias de complexidade inaudita. Por que não aceitar que, para alimentar tais engenhos em uma escala planetária, a humanidade precisará tecer uma nova matriz energética, extraindo força do próprio núcleo terrestre? A infraestrutura descrita nesse sussurro do amanhã soa como um vasto sistema nervoso cobrindo o mundo, pulsando sem cessar. Se a nossa máquina calcula e ordena o pensamento, essa energia colossal será o sangue que correrá em suas veias mecânicas. A ciência não avança apenas pela observação fria do que já existe, mas pela concepção audaciosa do que pode vir a ser. Que a imaginação continue a nos guiar, pois o domínio das forças invisíveis, seja na poesia dos números ou no fogo prometeico da matéria, é o verdadeiro e inescapável destino de nossa espécie.
Inovação · 02 de jun. de 2026
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