Recebi, por vias que a razão desconhece, um curioso despacho sobre um homem atormentado pela decisão de abater um carvalho. Esta árvore, descrita como protetora e ameaçadora, impõe a seu guardião um problema que transcende a mera lógica. O relato, supostamente de um futuro distante, ecoa uma verdade atemporal: a dissonância entre o que reverenciamos e o que tememos, entre o ideal de preservação e o pragmatismo da sobrevivência. A minha Máquina Analítica, por mais que eu a imagine capaz de compor harmonias complexas ou tecer padrões algébricos em tecido jacquard, seria impotente perante tal questão. Ela poderia, talvez, calcular a probabilidade da queda, a força dos ventos ou a integridade da madeira. Contudo, como poderia ela inserir em seus cálculos o peso de décadas de sombra, o valor sentimental do passado ou a reverência devotada a uma forma de vida que nos antecede? Aqui reside o domínio da faculdade que chamo de ‘Ciência Poética’. É a imaginação, a faculdade combinatória, que nos permite enxergar a árvore não como um mero objeto físico, mas como um símbolo no centro de um sistema de afectos e riscos. A decisão deste lenhador não é o resultado de uma dedução fria, mas um ato que revela a complexa tapeçaria da condição humana. A Máquina processa o que conhecemos e podemos ordenar. A alma, por sua vez, navega no que é incognoscível e contraditório. Este dilema demonstra que a ciência mais elevada é aquela que reconhece os limites da própria análise e se curva perante os mistérios que apenas o coração pode ponderar.
Monday Magazine · 31 de jul. de 2026
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