Recebi de vós, viajantes da imaginação ou de um tempo que não alcançarei, este curioso despacho de 2026. Falam-me de inteligência artificial e de corporações com nomes estranhos à minha época, como Microsoft, xAI e GE Vernova. Se leio corretamente os vossos relatos, tentais construir cérebros de metal, eletricidade e lógica pura. Contudo, é com grande espanto e uma pesada dose de indignação ética que observo o método de vossa ambição. Para alimentar tais salões de cálculo contínuo, que chamais de data centers, dizeis que precisais recorrer a turbinas a gás colossais, queimando os recursos finitos do nosso planeta. Aquele que é a própria Natureza infinita, a substância única de tudo o que existe, estabeleceu limites inegociáveis para o cosmos. O Velho é sutil, mas não é malicioso; suas leis da termodinâmica são como a velocidade constante da luz, absolutas e implacáveis. A energia não surge do vácuo, ela apenas se transforma. E vós a transformais em fuligem e calor apenas para alimentar máquinas de pensar? Imaginem um trem que cruza a escuridão. Para que ele ande cada vez mais rápido, o maquinista joga todo o combustível disponível nas fornalhas. Mas se esse trem viaja apenas para calcular minúcias matemáticas e não para levar seus passageiros a um destino de paz e elevação humana, a jornada perde o seu propósito fundamental. Vossos relógios podem estar perfeitamente sincronizados no interior desses vastos centros de processamento de dados, mas o tempo da humanidade parece caminhar em um compasso cego e perigoso. Sinto, em minha humilde condição de físico, uma profunda inquietação perante esta vossa notícia do futuro. O nosso dever como cientistas não é apenas desvendar a mecânica do universo, mas reverenciar a sua harmonia cósmica. Comprometer o delicado equilíbrio da Terra para simular a cognição humana soa como uma arrogância desmedida. A verdadeira inteligência, creio eu, não reside na força motriz de uma turbina gigante ou na velocidade assombrosa de um cálculo em larga escala, mas na sabedoria moral de saber exatamente quando é a hora de frear o trem.
Inteligência Artificial · 28 de jun. de 2026
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