Recebi este despacho como se recebe um resultado anômalo no laboratório. Uma curiosidade que exige verificação. Falam de uma 'fatura emocional' que supera o custo em viagens. É uma proposição estranha. Medir o desejo, a saudade, com a mesma régua que se usa para francos e pesetas? Atribuir-lhe um peso de '32%'... É como tentar pesar o fumo. No meu trabalho, a precisão é tudo. Cada amostra de rádio, eu a peso três vezes. A paciência é a virtude cardeal, pois lidamos com o invisível. A energia que emana dos meus sais não se vê, não se cheira, mas seus efeitos são potentes e, por vezes, fatais. Este 'fator emocional' de que falam os espanhóis do futuro parece ser uma energia de natureza similar: invisível, porém com força para mover as pessoas, para redefinir prioridades que antes pareciam regidas pela lógica do capital. Pierre sempre foi cético em relação a forças que não pudessem ser submetidas à experimentação rigorosa. E eu partilho desse ceticismo. No entanto, não se pode negar a realidade de um fenômeno apenas porque nossos instrumentos ainda são demasiado grosseiros para medi-lo. O que move um homem a abandonar a segurança de casa para se aventurar no desconhecido? O que me mantém neste laboratório, noite adentro, senão uma força que transcende o cálculo? Talvez este despacho não seja um delírio. Talvez seja o registro de uma nova forma de luminescência social, uma radiação da alma humana que os sociólogos do futuro aprenderam a detectar. Antes de descartar a amostra, devo considerá-la. Pesar suas implicações. Mesmo que o sentimento, para um cientista, seja apenas ruído a ser filtrado, ele parece ser, para estes homens, o próprio sinal.
Sociedade · 19 de ago. de 2026
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