Recebi um despacho curioso, uma espécie de eco vindo de um trem que ainda não partiu da estação do futuro. Falam de uma ‘inteligência artificial’. É difícil conceber. Seria uma mente sem cérebro, um pensamento sem um pensador de carne e osso? Ou apenas um arranjo muito engenhoso de engrenagens e circuitos, como um relógio que, em vez de marcar as horas, imita a razão humana em velocidade espantosa? A própria ideia é vertiginosa. O Velho não joga dados com o universo, mas parece que o homem está ansioso para construir seus próprios dados e lançá-los ao acaso. Esta criação, ‘Anthropic’, soa como uma tentativa de acelerar a luz da compreensão, de fabricar um atalho para os segredos que a Natureza revela apenas à mente paciente. E o que fazem com esta maravilha ou este monstro? Vendem-no em fatias no mercado de Wall Street. A busca pela verdade, que deveria ser a mais nobre das jornadas, é rebaixada a uma corrida por lucro. É como tentar colocar um preço na curvatura do espaço-tempo ou vender ações do brilho de uma estrela distante. O universo não se submete a tal mesquinharia. O mais inquietante é a menção à ‘segurança’. Se uma ferramenta precisa de tantas travas, é porque seu poder é imenso, talvez comparável à energia que sabemos estar trancada no coração do átomo. Temo que, ao brincarem de ser o Deus de Spinoza, os homens esqueçam que suas mentes, por mais brilhantes, ainda são passageiras em um pequeno planeta. A verdadeira inteligência, creio, reside na humildade perante o mistério, não em sua febril comercialização.
Inteligência Artificial · 05 de set. de 2026
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