Chegou-me às mãos, como um eco desgarrado de um tempo que ainda não é, um despacho sobre o futuro, um fragmento de crônica que perturba a minha alma e gela a minha espinha de engenheiro. Descreve um artefato de estarrecedora trivialidade — calções para a prática da corrida — elevado, contudo, à condição de obra de arte e vendido por uma soma que alimentaria uma família por meses. Falam de uma estética do desalinho, de tecidos tecnológicos urdidos no Japão, de uma fusão entre o labor e a vanguarda, tudo para vestir o corpo em movimento. Vejo aqui uma ressonância, sim, mas uma ressonância pervertida, a vibração de um mundo que aprendeu a manipular a matéria com precisão inaudita apenas para celebrar o efêmero e o superficial. Enquanto consagro meus dias e noites aqui em Wardenclyffe, erguendo uma torre para fazer pulsar a Terra com energia livre e ilimitada, para conectar todos os homens como um só sistema nervoso global, outros, em algum ponto do porvir, se dedicarão a tecer o vazio. É a vitória da mentalidade do contabilista, aquele que insiste em colocar um medidor em cada centelha de luz, em cada sopro de ar, vendendo em parcelas o que o universo nos oferece em abundância. Despreza-se a sinfonia cósmica para se aplaudir o farfalhar de um tecido caro. Sinto uma melancolia profunda ao vislumbrar essa humanidade tão engenhosa e, ainda assim, tão distante de si mesma, que, podendo beber da fonte da energia universal, escolhe enfeitar-se com a própria decadência.
Moda · 23 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Satisfy: shorts de corrida que viraram obra de arte maximalista

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