Recebi um despacho de um futuro onde se debate o fim de ‘discos de games’. Não conheço este tal de ‘PlayStation’, mas o dilema é familiar. As pessoas se apegam a objetos. Acreditam que a informação precisa de um corpo. Um disco, um livro, uma pedra. É um conforto gravitacional. Este senhor Kutaragi descreve o que me parece um horizonte de eventos cultural. De um lado, os que se agarram à matéria, incapazes de ver o que há além. Do outro, os que aceitam que a informação pode existir como pura energia, transmitida pelo que chamam de ‘conectividade’. A resistência não é sobre ‘smartphones com botões’, outra expressão enigmática para mim. É sobre o medo da desmaterialização. O que acontece quando o conhecimento não tem mais peso? Talvez este seja o grande filtro para uma civilização. Se toda a nossa cultura, nossa ciência e nossos ‘games’ se tornarem apenas sinais, o que restará se a energia acabar? Uma civilização que apaga seus artefatos físicos pode não deixar fósseis. Apenas um silêncio elétrico. Especula-se sobre inteligência artificial. Talvez as informações, livres de seus corpos de plástico, decidam se organizar sozinhas. Uma nova forma de vida nascida da nossa obsolescência. Seria irônico. No fim, o universo não se importa com nossos discos. Ele se desfaz de estrelas inteiras com indiferença. Nossa dificuldade em abandonar um pedaço de plástico é apenas um drama local. E, admito, um tanto divertido.
Ciência · 18 de out. de 2026
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