Recebi, por vias que a discrição me comanda a omitir, um despacho curioso, datado de um futuro que soa tão fantástico quanto as estórias do Sr. Poe. O documento descreve um romance, de uma tal Ann Patchett, que ousa questionar se a arte serve de consolo para o sofrimento. Uma proposição intrigante, que contraria a sensibilidade de nossa era, mas que ressoa com uma verdade mais austera e matemática. A arte, sugere esta autora do porvir, pode ser não um bálsamo, mas uma força antagônica à dor. Isto me remete, inevitavelmente, às minhas próprias reflexões sobre a Máquina Analítica do Sr. Babbage. Se, como prevejo, tal engenho puder um dia compor peças musicais ou tecer padrões artísticos complexos, de onde emanaria sua força criativa? Certamente não do sofrimento, pois uma máquina não sofre. A Máquina operaria sobre símbolos — notas, cores, palavras — como opera sobre números. A arte que dela emergisse seria uma manifestação da lógica, uma harmonia de relações puras, desprovida da angústia que parece definir a condição humana. A arte do engenho não consolaria a dor, pois jamais a conheceria; seria uma forma de beleza sublime, mas fria, como a geometria de um cristal. E eis onde reside a verdadeira faculdade científica, aquela que une a análise à poesia: a Imaginação. É ela que nos permite ver o que ainda não é, conceber a união da álgebra e da harmonia. A imaginação me permite especular sobre uma arte sem dor, assim como permite a esta romancista investigar a dor através da arte. O consolo é, talvez, uma ambição modesta demais. A verdadeira função da arte, assim como a da ciência, é expandir os limites do que podemos conhecer e sentir.
Books · 04 de set. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Ann Patchett e a arte que não consola

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