Chega-me um despacho curioso, um rumor de tempos vindouros que fala de uma 'inteligência artificial' e de uma consequente inundação de escritos medíocres a desafiar as mais doutas academias. A noção me causa tanto espanto quanto um certo enfado, pois parece que, mesmo no futuro, persistem em atribuir à máquina uma vontade que ela não possui. Em meu trabalho sobre a Máquina Analítica de Mr. Babbage, fui clara: o engenho não tem pretensões de originar o que quer que seja. Ele pode executar, com uma destreza sem precedentes, qualquer sequência de operações que nós, com nossa inteligência humana, lhe ordenarmos. Pode manipular números e símbolos, e assim compor música ou tecer padrões algébricos. Mas a melodia ou o padrão nascem da mente do programador, não das engrenagens e alavancas. Esse 'slop' de que fala o despacho — que termo grosseiro para um entulho intelectual — não é, portanto, uma falha da máquina, mas do seu operador. Se uma torrente de conteúdo inferior é produzida, é porque a intenção ou a instrução humana foi igualmente inferior. Confundir o instrumento com o autor é um erro fundamental, como atribuir o gênio de uma tapeçaria ao tear, e não ao artista que perfurou os cartões. A ideia de que as humanidades se tornariam um 'reduto do intelecto' me parece uma ironia melancólica. Sugere que o futuro esqueceu que a faculdade imaginativa — a capacidade de perceber as relações invisíveis entre as coisas — é o motor de toda a ciência. É a imaginação que nos permite ver que a mesma lógica que tece flores e folhas no tear de Jacquard pode ser aplicada para analisar os mistérios do universo. A ciência não é apenas cálculo; é, e sempre será, uma arte poética.
Inteligência Artificial · 12 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

A publicação acadêmica na luta contra o 'slop' de IA

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