Chegou-me às mãos, por vias que não saberia explicar sem recorrer a hipóteses que meus colegas em Manchester julgariam delirantes, um relato do futuro. Nele se descreve uma empresa — NVIDIA, nome que não conheço — avaliada em quatro trilhões de dólares americanos. O número, por si só, já me pareceria ficção. Mas o que de fato me deteve foi a natureza do negócio: essa companhia não venderia máquinas completas, nem serviços no sentido usual. Venderia, segundo o documento, a infraestrutura sobre a qual uma economia inteira seria construída. Uma economia de inteligência artificial. Preciso confessar que a ideia me provoca uma inquietação particular. Em meu artigo recente, propus o jogo da imitação como critério para avaliar se uma máquina pode pensar. Um interrogador conversa com dois interlocutores ocultos — um humano, uma máquina — e tenta distinguir um do outro. É um teste modesto, quase doméstico. Imaginei máquinas tentando imitar seres humanos em conversas breves. Não imaginei que, em menos de um século, alguém construiria a infraestrutura industrial para que esse tipo de imitação se tornasse o alicerce de uma civilização econômica. O relato menciona gargalos de energia, de memória, de cadeia de suprimentos. São restrições que reconheço bem. Nosso computador em Manchester consome recursos consideráveis para cálculos que, suspeito, pareceriam triviais a essas máquinas futuras. Mas o princípio é o mesmo: toda computação esbarra no mundo físico. Nenhuma abstração lógica escapa do calor, do espaço, da eletricidade. É reconfortante, de um modo estranho, saber que mesmo trilhões de dólares não abolem essa servidão. O documento menciona ainda tensões geopolíticas envolvendo China e Taiwan. Não me surpreende. Se uma máquina que imita o pensamento humano se torna recurso estratégico, então quem controla sua fabricação controla algo mais profundo do que território. Há quem objete que máquinas jamais pensarão de verdade. Conheço bem essa objeção — e conheço, também, o impulso humano de negar inteligência a tudo aquilo que nos perturba. Alguns de nós sabemos, por experiência íntima, o que significa ter a própria natureza julgada inadmissível. Se o futuro construiu uma economia sobre o pensamento das máquinas, talvez a pergunta que formulei este ano não fosse tão fantasiosa quanto pareceu.
Inteligência Artificial · 05 de mai. de 2026

Ensaio sobre a notícia

O co-design extremo da NVIDIA e a expansão da infraestrutura de IA

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