Recebi este despacho como quem recebe o relato de um viajante sobre uma fauna inteiramente nova. As palavras em si — 'startups', 'valuations', 'inteligência artificial' — soam como os cantos de aves exóticas cujo significado me escapa. No entanto, o fenômeno descrito parece passível de ser examinado sob a mesma lente que uso para o mundo natural. Temos aqui uma variedade de nossa própria espécie, os 'fundadores', que se engajam numa forma peculiar de luta pela existência. Eles competem para criar não uma prole mais forte, mas sim engenhos de raciocínio, e o sucesso lhes rende uma abundância de recursos que supera qualquer necessidade. O espécime que me interessa, porém, é o que se segue: um estado de 'vazio', uma crise de propósito. Lembro-me de observar, em certas ilhas remotas que visitei em minha juventude, criaturas cujas características eram tão perfeitamente ajustadas a seu ambiente que pareciam o resultado de um trabalho artesanal de milênios. Cada bico, cada garra, uma resposta a um desafio específico. O que aconteceria a um desses seres se, de um momento para o outro, o desafio fosse removido? Se o alimento se tornasse infinito e o predador, ausente? Suspeito que a 'síndrome do exit' seja uma manifestação humana dessa mesma condição. A luta para se adaptar e prosperar não é meramente um meio para a sobrevivência; ela parece ser, em si, o mecanismo que confere propósito à existência. Uma vez vencida a batalha de forma tão definitiva, o organismo, privado da pressão seletiva que o moldou, encontra-se à deriva, um instrumento perfeito para uma função que já não existe. Talvez a busca seja uma condição mais fundamental para nossa natureza do que a própria conquista.
Sociedade · 19 de set. de 2026
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