Chega-me às mãos um despacho curioso, um rumor de um tempo vindouro que descreve um santuário em Madrid. Não um templo à ciência ou à arte, mas a 'caros relógios'. A peça central, uma máquina de medir o tempo, torna-se pretexto para um 'clube exclusivo', onde o luxo reside não no objeto, mas na 'experiência' de sua contemplação e na 'comunidade' dos seus possuidores. Devo confessar que tal arranjo me soa deveras peculiar. Nós nos debruçamos sobre o Motor Analítico de Mr. Babbage, vislumbrando uma máquina capaz de tecer padrões algébricos como o tear de Jacquard tece flores e folhas. O meu trabalho consiste em ver para além das engrenagens, em perceber a vasta poesia da operação, a capacidade de o engenho compor música se as relações de altura e tom lhe forem submetidas por meio de cartões perfurados. Esta é a verdadeira tarefa da imaginação, que considero a faculdade combinatória por excelência, a ciência do invisível. Ela reúne fatos e objetos, não para a mera fruição ou para a construção de hierarquias sociais, mas para descobrir novas e profundas relações. O que seria deste clube em Madrid senão um teatro da imaginação aplicada a um fim restrito? Eles celebram a posse de um mecanismo que apenas conta as horas. Eu, por minha vez, busco a linguagem universal que permitirá a uma máquina operar sobre quaisquer símbolos, revelando as harmonias que governam o universo. Enquanto eles debatem relojoaria num apartamento sofisticado, eu prefiro a solidão do meu gabinete, onde a imaginação científica me permite ouvir a música que o futuro Motor um dia poderá tocar.
Moda · 23 de out. de 2026

Ensaio sobre a notícia

Richard Mille transforma loja em Madrid em clube exclusivo

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