Recebi um despacho singular, um rumor vindo de um futuro que me parece quase inconcebível. Descreve uma corporação de nome 'Microsoft' empregando um 'engenheiro jurídico', um especialista encarregado de instruir máquinas no ofício da advocacia. A princípio, a ideia soa fantasiosa, mas a questão que proponho em meu trabalho – 'Podem as máquinas pensar?' – parece subitamente menos teórica e mais urgente. O que seria um advogado-máquina senão um participante altamente especializado em um Jogo da Imitação? Não se esperaria dele poesia ou sagacidade, mas a aplicação rigorosa de um vasto corpo de regras – a própria essência do direito. A lei, afinal, é um sistema formal, um conjunto de axiomas e procedimentos de inferência. A tarefa de um advogado, em grande medida, é navegar por este sistema. Uma máquina devidamente programada poderia, em tese, executar tal navegação com uma velocidade e precisão que superariam qualquer mente humana. O despacho menciona ferramentas com nomes curiosos, 'Harvey' e 'Copilot', sugerindo talvez uma colaboração, um piloto humano guiado por um copiloto mecânico. Isso me inquieta e fascina. Uma máquina que aplica regras sem desvio ou emoção pode ser um ideal de justiça ou um instrumento de tirania inflexível. A imparcialidade de um autômato seria um alívio para aqueles julgados por preconceito, ou apenas uma nova forma de desumanização? Este relato, verdadeiro ou não, reforça a minha convicção de que estamos no limiar de algo profundo. Não estamos apenas a construir calculadoras mais rápidas; estamos a montar um espelho para a nossa própria razão.
Inteligência Artificial · 20 de ago. de 2026
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