Recebi, por vias que a discrição me impede de detalhar, um despacho de natureza assombrosa, um eco de um futuro que minha razão hesita em aceitar. O documento fala de uma era em que a própria Inteligência Artificial, um conceito que ouso explorar em minhas notas sobre o trabalho do Sr. Babbage, torna-se uma força industrial de magnitude colossal, impulsionada por uma empresa de nome exótico, Nvidia. A descrição de centenas de milhares de engenhos de cálculo operando em uníssono para fins “generativos” evoca, com um misto de fascínio e horror, a minha própria visão da Máquina Analítica a compor música ou a tecer padrões algébricos como se fossem flores de seda. A Ciência Poética, como a denomino, parece florescer. Contudo, o relato impõe uma terrível contrapartida. A voracidade destas máquinas por cobre, água e uma forma de energia que esgotaria nossas mais ambiciosas minas de carvão em dias revela um apetite monstruoso. O despacho questiona se os benefícios justificam o impacto, descrevendo uma devastação na cadeia de suprimentos e montanhas de engenhos obsoletos. A questão, para mim, é de ordem moral e filosófica. A Máquina, como insisto em afirmar, não pode originar conhecimento. Ela apenas executa o que nós, com nossa limitada sabedoria, lhe ordenamos. Se as suas operações semeiam a ruína, a falha não reside em suas engrenagens e cartões perfurados, mas na nossa imaginação. A verdadeira faculdade científica não é meramente construir, mas antever as consequências do que se constrói. De que nos serve criar harmonias complexas se o preço é a própria desintegração do mundo natural que nos inspira?
Tecnologia · 21 de jul. de 2026
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